A Lenda Do Anão
OO maior escritor alemão em atividade e um dos mais comprometidos com a história e a política de seu país. Günter Grass nasceu em 1927, na cidade de Danzig, que hoje pertence ao território polonês e se chama Gdanski. Lutou na Segunda Guerra Mundial, quando foi ferido e capturado por tropas americanas, sendo libertado apenas em 1946. Depois disso, trabalhou como agricultor e em minas de potássio. Assim, antes de se dedicar à literatura, Grass conheceu a realidade do povo alemão e a sua tentativa de reconstruir um país semidestruído pela guerra.
Foi com essa consciência de nacionalidade que Grass iniciou seus estudos literários na Academia de Artes de Düsseldorf e na Academia de Belas Artes de Berlim. Suas primeiras obras foram para o teatro, com boa acolhida da crítica. Mas seu primeiro romance, "O Tambor", também o mais conhecido e festejado pela crítica, foi recebido com ira pela sociedade da época. A narrativa trata da história do anão Oskar, do seu nascimento até sua internação num sanatório. O livro é uma crônica dos efeitos de desagregação e individualismo que se apoderam das pessoas em regimes totalitários, como o nazismo. O Tambor, escrito em 1959, é uma obra que continua atual, ainda mais com o crescimento de movimentos racistas e de extrema direita na Europa contemporânea.
Assim, Günter Grass dedicou sua obra a dissecar a realidade do povo alemão e principalmente as feridas não cicatrizadas da Segunda Guerra Mundial. Nos anos 60, dedicou-se à luta pelos ideais democráticos e à militância política pelo Partido Social-Democrata. Desde então, desenvolveu suas críticas contra o imperialismo americano, o que lhe fechou várias portas no mundo literário ocidental. No fim dos anos 80, suas críticas se voltaram para a unificação das Alemanhas Ocidental e Oriental, que considerou forçada e equivocada. Para Grass, as diferenças culturais desenvolvidas em 40 anos não foram levadas em conta. Suas considerações sobre este assunto, no livro "Um Vasto Campo", foram execradas pela crítica alemã, que festejava a união.
A concessão do prêmio Nobel de Literatura de 1999 a Günter Grass não poderia deixar de ser uma decisão relutante. Desde o início dos anos 80, a Academia Real da Suécia avaliava a possibilidade da premiação, mas, devido às posições políticas e ao furor com que defendia suas idéias, a condecoração foi várias vezes adiada. O Nobel veio coroar a carreira de um dos escritores europeus mais inquietos do século passado, que fez da indignação e da ideologia sua estratégia e da palavra, sua arma.
E Grass continua inquieto. Freqüentemente requisitado para participar de aulas, palestras e debates, onde defende com afinco suas posições políticas, ele ainda encontra tempo para continuar escrevendo. O seu mais recente livro, "A Marcha do Caranguejo" (Im Krebsgang), publicado em 2001, retoma o tema do nazismo, utilizando como pretexto o naufrágio do navio alemão Wilhem Gustloff, que partiu da cidade natal do escritor em 1945. A embarcação levava mais de 12 mil pessoas fugindo da ofensiva da U.R.S.S. contra a Prússia Oriental e a Pomerânia. No meio da viagem, o Gustloff foi atingido por um torpedo soviético e afundou, matando cerca de 9 mil passageiros. O naufrágio, cinco vezes maior que o do Titanic, em 1912, nunca teve repercussão, abafado pelo regime nazista.

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